quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Oscilação

Falta uma semana para eu viajar. Embora eu esteja muito ocupada com o acerto dos últimos detalhes, a minha motivação tem oscilado bastante. Ontem eu recebi meu visto (!!!), e para mim, o visto simboliza a concretização da viagem, pois é uma das últimas etapas do processo. Mas também fiquei triste, pois a viagem se materializa, e eu também já visualizo a minha partida. Todos os dias eu me questiono se fiz a escolha correta, em largar meu emprego, minha família, minhas cachorras, meu carro, minha realidade.
Nesses últimos dias eu tenho andado muito pela minha cidade – Novo Hamburgo, e é impressionante o quanto as pessoas pouco mudam aqui. Fui aos meus primeiros empregos, e me surpreendi ao perceber que os meus colegas há 4 anos continuam hoje, com a mesma função e atividades da época em que trabalhamos juntos. As poucas mudanças a que foram submetidos são físicas, como a queda de cabelo, o envelhecimento, o aumento de peso. Até o olhar é o mesmo. Nessa hora, senti uma fagulha de otimismo, e sei que fiz a melhor escolha. Depois deste um ano longe, ao menos vou ter muitas histórias pra contar. Mas isso é o mínimo mesmo.
Sei lá, acho que essa confusão de sentimentos é normal nessa situação.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Ai que medo

Eu tenho certeza (não é pressentimento) de que algo ruim vai acontecer durante meu vôo. Essa noite eu sonhei que o avião caía sobre os Alpes Suíços (não sei se passa por ali, mas ele pode fazer um desvio, oras), e aí, dentre todas as pessoas do vôo, eu, cuja dimensão do quadril é superior, fui escolhida para alimentar o restante dos passageiros. Assim, até que o socorro chegasse, toda a superfície carnosa do meu quadril salvaria muitas vidas. Isso seria divulgado em rede nacional, meus pais ficariam orgulhosos da missão de sua filha, e eu morreria por uma causa, não tão justa assim, porque no meu sonho, o socorro viria no dia seguinte, e ninguém morreria de fome.
A segunda opção é de que um muçulmano com nome estranho sente ao meu lado. Ele tem um turbante sob a cabeça, uma barba cerrada, e veste uma roupa cheia de explosivos. Ele vai me obrigar a ficar ao seu lado, enquanto grita para o restante dos passageiros. As aeromoças nervosas não vão entender direito, já que só falam espanhol. Mas elas vão agradecer que ao menos o muçulmano escolheu uma “latina” como refém. Ele vai gritar, não vai ser entendido, e vai roubar meu Ipod, o meu bem mais valioso. Ele não vai gostar da minha seleção musical, e vai explodir todo o avião. Todas as pessoas morrerão, e os corpos serão procurados por vários labradores, tal qual a minha Julie.
Também é possível que o aeroporto de Madrid sofra um atentado. Em algum momento em que eu estiver lá, sentada, durante as três horas que sou obrigada a aguardar pela conexão que me levará a Bruxelas, algum terminal será alvo de explosivos. As pessoas gritarão, e tentarão fugir (sem saber de onde), sem braços, pernas e olhos. Talvez eu também perca algo, quem sabe?
A última hipótese é o extravio das minhas malas, e das minhas roupas que há tempos não uso, as minhas parcas roupas de inverno. As malas serão extraviadas, e a Ibéria não vai me reembolsar tão cedo. Vou passar um bom tempo só com a roupa do corpo, esperando pelo primeiro pagamento para comprar algo. Não vou poder pagar meus empréstimos que fiz para a compra da passagem, vou ser registrada no Serasa, e um cobrador vai bater à bota da minha casa para cobrar a dívida. Meus pais ficarão horrorizados com a incapacidade da sua filha em administrar suas próprias finanças.

Talvez viajar seja algo rotineiro, comum e previsível para a maior parte das pessoas. Pra mim não é. Eu só fui até São Paulo, e estou com muito medo dessa viagem, de passar 11 horas dentro de um avião. Esse medo me dá a certeza de que algo ruim vai acontecer. Espero que dentre tantas opções, seja o extravio de malas.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Pai

Ele duvida. Eu percebo pelo olhar, não precisa verbalizar nada. Estou habituada com esse semblante cujo objetivo é um só: menosprezar. É fácil, muito fácil, a teimosia cega, paralisa e só o faz entender os poucos pensamentos que temos em comum, tão esparsos em todos esses anos de convivência forçada. Eu não queria que fosse assim. Eu queria um abraço, um desejo de boa sorte, uma palavra de apoio, tão necessárias nesse momento. Mas não, ele se retrai, debocha, reclama, e me faz chorar.
Acho que nem vai sentir a minha falta, o meu pai.