sexta-feira, 25 de maio de 2007

A vida tem dessas coisas...

Sabe quando se lê algo que aconteceu aos outros, e se pensa que nunca acontecerá com a gente? Pois é, confesso que essa era minha idéia sobre a fase pela qual estou passando. Em uma semana minha vida mudou completamente, minhas bases foram balançadas, e eu perdi a direção. Fui expulsa da casa onde eu trabalhei como Au Pair durante quase quatro meses, dentre estes, boa parte do tempo com uma convivência que julguei insuportável. Além de ter que comprar minha comida e meu papel higiênico, lidar com desconfianças sobre a minha índole e ter que aturar armações, posso afirmar que por todo esse tempo eu fui infeliz. Não tive depressão, mas fui muito infeliz. Presenciar a própria mãe dar comida vencida ao filho, dar água como café manhã, deixar sapato sujo sob a mesa por dias fio, me fizeram perceber que o tratamento a mim dirigido seria pior ainda. E assim foi. Eu não dei atenção aos sinais, aqueles que julgamos tão pequenos, mas que possuem o poder de nos alertar sobre o que está por vir. Enfim, depois de muita baixaria, como colocar senha no computador para eu não acessar a internet, esconder a chave do carro, e não me reembolsar gasolina que coloquei com meu salário para levar as crianças à escola, eu fui convidada a me retirar da casa. Desde que comecei a trabalhar, nunca fiquei um dia sequer sem emprego, e nunca fui demitida. Essa situação é completamente nova para mim, nunca senti um recomeço tão latente à minha volta, ainda mais em outro país, tão longe da minha família, tão longe de tudo o que foi minha base por 25 anos. Eu ainda não sei o que pensar, por onde começar, ou o que buscar. Só sei que não pretendo voltar para o Brasil por isso. Eu acredito que a Bélgica tem muita coisa a me oferecer ainda, e não vou dar à essa situação o poder de condicionar o que me aguarda. Confesso que estou aliviada, com paz de espírito, me sentindo leve e com um caminho a me esperar. Não sei onde é o início deste caminho, mas eu já comecei a caminhar. Nesse período inicial, quero assimilar minhas idéias, entender minhas perspectivas, e me fortalecer. Sei que não será fácil recomeçar em outro país, longe de tudo e todos, sem lugar para morar ou trabalhar, mas eu confesso: me sinto preparada para o que der e vier. Depois de passar por tudo, o que vier é lucro. O máximo que pode me acontecer é voltar ao Brasil, dar um abraço à minha família, e viver novamente lá.