SexoPara mim, uma das maiores diferencas quando comparo Brasil x Europa é o que se refere a sexo. Sexo, no Brasil, (pelo menos para mim e minhas amigas é tabu). Peraí, que tabu é esse, já que a mulher brasileira tem fama de liberada sexualmente (ou melhor, de puta mesmo)? Tabu porque se a gente nao estiver magra, depilada e se sentindo bem, o sexo é de luz apagada. Se vc tiver um pneuzinho a mais, o cara já diz algo, e se vc fizer sexo no primeiro encontro, ou tardar pouco tempo, é fácil, e você só servirá para isso mesmo. Se vc tem amiga lésbica, os homens (os babacas, claro), acreditam que vc tem tendências homossexuais, e portanto, nao é confiável. O mesmo acontece quando se elogia alguém do mesmo sexo, se o elogio for exagerado, é porque você é bi ou homossexual. Se a conversa girar em torno de casamento ou filhos no primeiro encontro, é porque está interessada em algo a longo prazo (isso assusta os homens) e se vc for gay (mesmo que isso transpareca a quilometros de distancia), é melhor encobrir. Nossa, quanta babaquice. Quanta lavagem cerebral, quanto comportamento aprendido desde a infancia e repetido exaustivamente até sermos jovens adultos (no meu caso, hehe). Sabe como é o sexo na Europa? O sexo é isso, é sexo, uma palavra pequena, de quatro letras, e muito descomplicada. Sexo se faz quando se quer (depilada ou nao), com quem se quer (tenho várias amigas e amigos bi), sem se importar com o que os outros vao pensar. Sexo se faz de luz acesa, mesmo sendo gordinha, e se for no primeiro encontro, significa que você está muito interessada pela outra pessoa (o que nao deixa de ser verdade). O fato de se ter amigos ou amigas homossexuais nao te enquadra em nada, nao significa que voce queira fazer sexo com alguem do mesmo sexo, nem significa que queira chocar ou posar de moderna (sempre lembro das reportagens sobre a Luana Piovani em clubes GLS, onde o tom era sempre cool). O fato de querer ficar com alguem do mesmo sexo tambem nao te condiciona a nada. Agora eu estou "homo", quantas vezes já escutei essa frase aqui na Espanha. A nudez tampouco é tabu aqui. Já fiz sauna e vi muita gente peladona, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Na praia, seja na Espanha, Bélgica ou Franca, topless, mesmo para senhoras de mais de 50 anos. Eles apenas buscam a comodidade de fazer sauna sem roupa e se bronzear sem marcas, e isso nao tem apelo sexual nenhum (pelo menos para eles). Quanta diferenca do Brasil. Bem, pra ilustrar bem esse tópico, vou relatar o episódio que me inspirou a escrever sobre isso. Após a semana de Carnaval, atendi em torno de quatro travestis no restaurantes, todos exageradamente vestidos de mulher, e agindo de forma espalhafatosa. Assim que entraram no recinto, foram recebidos com palmas e saudacoes por todos os homens presentes, e claro, por suas namoradas e esposas. Todos, sem excecao, foram até o grupo de travestis, conversaram (alguns até apalparam, na presenca de suas mulheres) e foram simpaticissimos. Nenhum comentario preconceituoso, nenhum olhar maldoso, nenhuma virilidade questionada por isso. As mulheres, pediam dicas de maquiagem e cabelo, e assim, os travestis se tornaram o centro das atencoes. Agora, eu imagino a cena no Brasil. Travesti entrando em fast food. Primeiro, talvez nem mesmo entrasse, ou se entrasse, provavelmente nao seria tao espalhafatosamente. Ninguem falaria com o travesti, se algum homem puxasse assunto, teria sua masculinidade questionada e sua mulher ficaria insegura por um bom tempo (talvez se perguntando sobre o passado do marido, suas tendencias e antecedendo o fracasso do casamento). Os homens se orgulhariam em dizer algo do tipo "o último que andou assim na minha cidade levou pedrada", olhariam com nojo e se manteriam distantes. Eu nao sei qual das duas formas de interpretar é a correta (e tampouco estou aqui para julgar), mas eu admiro a forma liberal e simplista com que os europeus percebem o sexo. Sexo é apenas sexo, e ponto final.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Francesco
Ele usava uma jaqueta marrom, contrastando com seus olhos cor de mel e com seus cabelos escuros e ondulados. Sério, com porte de modelo, cumprimentou-me educadamente. Assim que o vi, floreceu meu sorriso mais espontâneo, e agradeci mentalmente por ter tido a chance de ver o homem mais lindo de até entao em mais uma madrugada fria e previsível de trabalho. Perguntei o que ele desejava, e ele me disse, calmamente, que gostaria de deixar um currículo. PQP; pensei, um homem desses precisa trabalhar? E ainda busca um trabalho como o meu? Pensei que ele iria pedir troco, ou pior, usar o banheiro sem comprar nada (como a maioria desses espanhóis bagaceiros insiste em tentar, e pior, depois, eu tenho que limpar). Perguntei o motivo de buscar esse tipo de trabalho, Me gusta trabajar en hostelaria, ele disse. Na hora, constatei: é italiano. Ele me achou inteligente por isso, por identificar seu idioma mae, e por saber que Marigliano fica em Napole, a província de onde ele veio. Aliás, quero fazer um adendo, todo brasileiro que eu conheco fala portunhol, e todo italiano tem o mesmo acento, logo, eles falam italianol. Esse é o mal (ou bem) de aprender dois idiomas similares, de raízes latinas. Enfim, com seu currículo em maos, fiquei mais embascada. Ele tem dentes lindos, é muito simpático, se chama Francesco, e nao é burro (ai que merda Francesco, porque tu é tao acima da média em tudo?). Francesco tem três livros publicados, é modelo profissional, fotográfo e fundador de uma assossiacao na Espanha para aficcionados por fotografia, tem fluência em francês, alemao, inglês (já morou nos USA), espanhol, e claro, italiano, e é formado em literatura. E como se nao bastasse, um romântico, o que percebi quando me disse: sabe, eu busco esse tipo de trabalho porque infelizmente nao posso sobreviver só dos meus sonhos, embora eu nunca os abandone. Depois dessa frase, eu arrisco dizer que ganhei a noite, o dia, a semana, o mês. Eu estava lendo seu currículo, e nos despedimos. Quase tive um enfarte quando vi que somos quase vizinhos, e o chamei (ele já na porta, mulheres na rua se contorcendo para ver passar o homem mito): Si, moramos en la misma calle. Ele me deu seu cartao pessoal, e me convidou para ver seu trabalho como fotográfo (seu estúdio fica no mesmo prédio). Depois disso, trabalhei pensando, porque eu nao encontro um Francesco em versao normal, sem ser modelo? Porque? Será tao dificil assim? Eu nao quero um Francesco, porque sei que ele é sinônimo de problema (leia-se sou insegura e vi a reaco das mulheres quando o viraml), mas eu queria alguém que tivesse sonhos, e acreditasse neles, será pedir muito? Eu queria alguém mente aberta e desapegado como eu, que topasse de vez em quando largar tudo pra recomecar, trabalhar em algo nunca antes pensado, conviver com outras pessoas, aprender e conhecer o mundo. Deve ser por isso que estou sozinha. E claro, eu nao vou ver suas fotos, pois além de tudo isso, Francesco me disse que deseja aprender português. Já viram, Francesco = problema. Ai que problemao, hehehe.
In between days
Sabe aquela fase intermediária, precedente de algo importante, e que infelizmente, nao pode ser alterada? Pois é, eu estou em uma fase assim - IN BETWEEN DAYS, e se tudo der certo, até o final deste ano, minha vida será diferente, e pela primeira vez na Europa, vou poder ser eu mesma, agir de acordo com minhas vontades, valores e mais importante, seguir meus sonhos (eu tenho muitos...). Adendo: tenho outra amiga muito importante que também se encontra nessa fase, a Sil.
Até agora meus sonhos estao cobertos por névoa, e ainda bem, essa névoa se dissipa na mesma medida em que o processo se encaminha. Nossa, que bom isso, nao quero dar mais detalhes, mas eu tinha que escrever, mesmo a dez graus, na sacada do apartamento, usando a internet do hotel em frente (tudo para nao pagar lanhouse, já que estamos sem internet no apartamento, e eu tampouco disponho de grana extra).
Dia 22 se completa um ano da minha estada na Europa, e eu só tenho a agradecer o IMENSO crescimento pessoal que obtive depois dessa temporada. Bem, é isso, queria ter amigos ao meu lado para conversar, mas só tenho meus colegas de apartamento da Hungria, eles nao me entenderiam.
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