Ele usava uma jaqueta marrom, contrastando com seus olhos cor de mel e com seus cabelos escuros e ondulados. Sério, com porte de modelo, cumprimentou-me educadamente. Assim que o vi, floreceu meu sorriso mais espontâneo, e agradeci mentalmente por ter tido a chance de ver o homem mais lindo de até entao em mais uma madrugada fria e previsível de trabalho. Perguntei o que ele desejava, e ele me disse, calmamente, que gostaria de deixar um currículo. PQP; pensei, um homem desses precisa trabalhar? E ainda busca um trabalho como o meu? Pensei que ele iria pedir troco, ou pior, usar o banheiro sem comprar nada (como a maioria desses espanhóis bagaceiros insiste em tentar, e pior, depois, eu tenho que limpar). Perguntei o motivo de buscar esse tipo de trabalho, Me gusta trabajar en hostelaria, ele disse. Na hora, constatei: é italiano. Ele me achou inteligente por isso, por identificar seu idioma mae, e por saber que Marigliano fica em Napole, a província de onde ele veio. Aliás, quero fazer um adendo, todo brasileiro que eu conheco fala portunhol, e todo italiano tem o mesmo acento, logo, eles falam italianol. Esse é o mal (ou bem) de aprender dois idiomas similares, de raízes latinas. Enfim, com seu currículo em maos, fiquei mais embascada. Ele tem dentes lindos, é muito simpático, se chama Francesco, e nao é burro (ai que merda Francesco, porque tu é tao acima da média em tudo?). Francesco tem três livros publicados, é modelo profissional, fotográfo e fundador de uma assossiacao na Espanha para aficcionados por fotografia, tem fluência em francês, alemao, inglês (já morou nos USA), espanhol, e claro, italiano, e é formado em literatura. E como se nao bastasse, um romântico, o que percebi quando me disse: sabe, eu busco esse tipo de trabalho porque infelizmente nao posso sobreviver só dos meus sonhos, embora eu nunca os abandone. Depois dessa frase, eu arrisco dizer que ganhei a noite, o dia, a semana, o mês. Eu estava lendo seu currículo, e nos despedimos. Quase tive um enfarte quando vi que somos quase vizinhos, e o chamei (ele já na porta, mulheres na rua se contorcendo para ver passar o homem mito): Si, moramos en la misma calle. Ele me deu seu cartao pessoal, e me convidou para ver seu trabalho como fotográfo (seu estúdio fica no mesmo prédio). Depois disso, trabalhei pensando, porque eu nao encontro um Francesco em versao normal, sem ser modelo? Porque? Será tao dificil assim? Eu nao quero um Francesco, porque sei que ele é sinônimo de problema (leia-se sou insegura e vi a reaco das mulheres quando o viraml), mas eu queria alguém que tivesse sonhos, e acreditasse neles, será pedir muito? Eu queria alguém mente aberta e desapegado como eu, que topasse de vez em quando largar tudo pra recomecar, trabalhar em algo nunca antes pensado, conviver com outras pessoas, aprender e conhecer o mundo. Deve ser por isso que estou sozinha. E claro, eu nao vou ver suas fotos, pois além de tudo isso, Francesco me disse que deseja aprender português. Já viram, Francesco = problema. Ai que problemao, hehehe.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
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